O livro de Colini explora a alma das pessoas. E, de quebra, ainda consegue explicar um pouco do que é o Brasil. O de ontem, que
em muito se parece com o Brasil de hoje. Porque, como lá no rio,
a curva está no mesmo lugar.

Trecho do prefácio de Joaquim Maria Botelho.

O mês de março é conhecido por ser comemorado o mês dedicado às mulheres. E para começar com os dois pés na porta, esse texto analisa o livro Curva do Rio, escrito por Roosevelt Colini que faz um convite ousado para leitores interessados em descobrir um pouco mais sobre a história do Brasil e sobre a intensidade dos sentimentos que cercam uma protagonista forte e empoderada.

Uma esposa começa a perder as esperanças quando as cartas do marido param de chegar. Ansiosas por qualquer pista de seu paradeiro, mãe e filha partem à procura dele. Embebido por muito suspense e questões importantes como violência urbana, AIDs, aborto e outros temas pertinetes, é assim que começa a narrativa de R. Colini.

Curva do Rio é uma obra que impressiona desde o projeto gráfico – a capa com o desenho bem lindo e intuitivo, as fontes escolhidas, a diagramação -, porém, a beleza estética fica em segundo plano ao lermos a trama. É um livro profundo e emocionante e se o leitor se permitir, terminará transformado. Podemos considerar uma trama simples, mas com grande valor histórico e narrativo.

No quinto ano, deixamos de ter uma única professora. A figura única foi substituída por vários mestres de diversos assuntos, e,
para cada matéria, havia um novo livro. A sensação de acolhimento materno foi substituída pela de heróis. Cada um deles contando
coisas inéditas que eu julgava maravilhosas. Partes da vida e do
universo se descortinavam. E eu gostava cada vez mais daquilo.

(pág. 19)

A protagonista, uma menina nordestina e de origem humilde precisará enfrentar muitos desafios como a migração, o começo tardio na escola e é por meio da educação, que ela poderá ascender socialmente e seguirá na carreira acadêmica. A personagem cresce em meio às transformações do novo cenário. Ela tem um arco bem desenvolvido que pontua cada fase de sua vida. Ela descobrirá o amor, a liberdade sexual, a AIDS e toda a sua repercussão no Brasil, a inflação e política estudantil. Com o avançar da leitura, podemos perceber que o livro é bem abrangente e que contempla um bom detalhamento do cenário histórico de 1970 a 1990.

Além de contribuir culturalmente, vemos que a personagem precisa superar a perda do pai e se preocupar em traçar um destino diferente dos quais já foram pré-estabelecidos por conta de sua situação social e econômica. Algo interessante é que do começo ao fim, a protagonista nunca esqueceu ou deixou de procurar pelo pai. Ao mesmo tempo, longe e perto como o movimento de vai e vem das águas do rio, talvez por isso, mais uma coincidência ou não com o título, já que a jovem aguardava as cartas ou o retorno dele, no Sertão.

Outro ponto interessante é a abordagem de temas muito sensíveis, além da perda paterna. Infelizmente, as primeiras manchetes de jornais que circulavam e que confirmavam a aparição dos primeiros casos de Aids no Brasil nos anos 1980, acabaram por cristalizar um discurso permeado por intolerância e preconceito, o que agravou as primeiras décadas da epidemia. O diagnostico cruel mostrava que a maioria dos casos aconteciam entre homens que faziam sexo com homens e isso foi o bastante para ser atribuida o título de  “peste gay” em um noticiário marcado pelo alarmismo e pelo sensacionalismo, que estigmatizou homens gays, logo apontados como um “grupo de risco”. Mas o que muitos desconheciam era que mulheres, bebês, pessoas portadoras de hemofilia e usuários de drogas injetáveis também poderiam contrair o vírus. E lendo o livro, vemos que esse acontecimento paralisa a protagonista.

Eu me senti ouvindo um desabafo da personagem. Em certos momentos ela quer falar sobre seus sentimentos, ela busca melhorar o entendimento de suas emoções, seus anseios, suas inseguranças, bloqueios. Me senti como se ela conversasse comigo, pois mesmo vivendo em épocas diferentes, os problemas que nós mulheres enfrentamos são semelhantes. Uma passagem muito emblemática, mas muito real dessa reflexão sobre sentimentos é o fato de que ela sentia dificuldade em dizer que amava a própria filha e isso se dá pela infância que ela teve. Logo, na busca por querer ser mais afetiva à filha, ela tenta se entender primeiro. É como reconstruir algo que se quebrou.

Em a Curva do Rio, vejo uma grande ousadia do autor R. Colini, dele conseguir expressar de forma convincente e muito genuína, a visão e os sentimentos de uma personagem feminina. Demonstrou grande sensibilidade ao se desdobrar por temas fortes e sempre pela ótica de sua personagem. Vi uma empatia que muitas autoras nem sempre exercem, principalmente, ao abordar temas como o aborto e o quanto isso pode afetar uma mulher, independente do motivo que a levou a decisão de interromper uma gravidez; a depressão pós-parto e as dificuldades do exercício da maternidade que é muito romantizada. A abordagem foi bem feita e vejo muita carga emocional e verdadeira. Várias vezes me peguei esquecendo que um homem tinha escrito.

“Mas eu precisava combater a bondade, combater a vida que eu não queria, embora pouco soubesse da vida. Querendo ou não, às vezes, o preço da nossa liberdade deve ser pago por outros, a quem enredamos sem ter a noção de como desatar.”

(PÁG. 26)

Curva do Rio marca a estreia de R. Colini na literatura de ficção e mostra como, ao longo das décadas, três gerações de brasileiras precisarão conquistar espaço em um mundo feito para oprimi-las. Contudo, a menina que conhecemos no início do livro, cresce e se torna uma mulher que precisará compreender os seus sentimentos para se abrir verdadeiramente para a vida.

Resumo
Nota do Thunder Wave
resenha-curva-do-rioCurva do Rio é uma homenagem a força e a capacidade de resistir e existir que mora em todas nós mulheres. Mudamos de sonhos com o passar do tempo, mas não nos deixamos abater pelas adversidades. Esse livro é para nós mulheres que acreditamos num futuro melhor onde a violência não seja pauta carimbada nos noticiários, onde possamos exercer o nosso direito de ir e vir inteiras, onde possamos existir quanto mulheres e seres humanos.

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