Resenha: A Forma da Água- Guillermo del Toro e Daniel Kraus

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A forma da água Book Cover A forma da água
Guillermo del Toro, Daniel Kraus
27/02/2018
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Ficção
Intrínseca
27/02/2018

Richard Strickland é um oficial do governo dos Estados Unidos enviado à Amazônia para capturar um ser mítico e misterioso cujos poderes inimagináveis seriam utilizados para aumentar a potência militar do país, em plena Guerra Fria. Dezessete meses depois, o homem enfim retorna à pátria, levando consigo o deus Brânquia, o deus de guelras, um homem-peixe que representa para Strickland a selvageria, a insipidez, o calor — o homem que ele próprio se tornou, e quem detesta ser. Para Elisa Esposito, uma das faxineiras do centro de pesquisas para o qual o deus Brânquia é levado, a criatura representa a esperança, a salvação para sua vida sem graça cercada de silêncio e invisibilidade. Richard e Elisa travam uma batalha tácita e perigosa. Enquanto para um o homem-peixe é só um objeto a ser dissecado, subjugado e exterminado, para a outra ele é um amigo, um companheiro que a escuta quando ninguém mais o faz, alguém cuja existência deve ser preservada.

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Em uma maioria esmagadora, os filmes são baseados em filmes. Algumas vezes, acontece ao contrário, quando um longa ganha a sua novelização. A Forma da Água é um caso totalmente à parte. O livro foi escrito junto ao roteiro do filme, o que o torna algo único, como sua irmã gêmea que ganhou as telas e vários prêmios.

Como gêmeos, as duas obras possuem muitas semelhanças, mas seguem alguns caminhos diferentes, principalmente em relação aos personagens. Estes ganham uma introdução- como a captura do Deus Brânquia-, motivos que levam outros personagens a fazerem determinadas ações ou tomarem outras decisões.

De qualquer forma, os dois se separam em poucas coisas. Mesmo assim, é divertido assistir ao filme e ler o livro, ou o inverso.

Os autores, Guillermo del Toro e Daniel Kraus, conseguiram colocar todo o vislumbre cinematográfico em linhas. O leitor consegue visualizar os personagens, o ambiente, e muitas vezes ir até mais longe e sentir o cheiro do suor e do medo dos personagens.

O desenvolvimento de cada personagem é colocado em seu determinado capítulo, com partes do passado que se ligam a acontecimentos do presente, que irão se ligar em um ponto único na narrativa. Os dois conseguem criar uma história totalmente à parte, únicas para cada personagem em mundos completamente distintos e que diríamos impossíveis de um dia se cruzarem, para acontecer justamente o oposto.

Quando percebemos o modo de vida de Elisa, onde tudo se liga a água, notamos que não existe outra maneira neste universo dos dois personagens tão distintos não conhecerem. E ao mesmo tempo, a raiva que temos pelos soldados que caçaram e tiraram Brânquia de seu lugar, acaba cedendo para um pensamento, que se não fossem esses acontecimentos tão frios e “desumanos”, eles não iriam se conhecer.

Novamente Del Toro consegue mostrar que a dor e muitas coisas terríveis que acontecem em nossas vidas, podem ter um significado positivo em algum ponto desta intrincada estrada. A Forma como o mundo segue, é como a Água.

“Nós vamos viver. Vamos ter beleza, amor e liberdade. E acho que quando você elimina um dos lados da equação, vira panfletagem. Quando você usa a escuridão para falar da luz, é a realidade”.- Guilherme Del Toro em entrevista

E é sobre isto que o livro fala. Sobre as formas que as pessoas tratam a vida. As leves nuances que a água pode ter, como as relações. Hoje o mundo é calmo e de repente uma tempestade que pode cegar. Não sabemos para onde ir, se devemos ficar parados ou prosseguir. E quando tudo para, novas formas se formaram em nossas vidas.

Aqui vale um destaque para uma frase de Bruce Lee, no qual Del Toro se baseou para a sua história.

“Esvazie sua mente de modelos, formas, seja amorfo como a água. Você coloca a água em um copo, ela se torna o copo. Você coloca a água em uma garrafa, ela se torna a garrafa. Você coloca ela em uma chaleira, ela se torna a chaleira. A água pode fluir, a água pode destruir. Seja água meu amigo.” – Bruce Lee

O livro, assim como o filme, poderiam ter vários outros títulos, mas Del Toro escolheu justamente a água. E é de se pensar, já que ela não possui uma forma.

São esses os pontos que a obra nos traz em cada linha, as várias formas que o universo pode lhe dar para moldar o seu destino. E que nem sempre acontecimentos tão tristes, podem servir para viver eternamente em sofrimento, pois ele lhe levou até outras pessoas que irão junto a você, dar novas formas a sua história.

“O que é um fantasma? Um evento terrível condenado a se repetir uma e outra vez?”- A Espinha Do Diabo, de Guilherme Del Toro (2001)

Portanto, fantasmas são criados por cada um de nós. E como eles irão te assombrar, só depende de como você irá lidar com elas. Afinal, A Forma da Água, é dada por cada um de nós.

Veredito
Nota do Thunder Wave
ViaTexto escrito por Alan Uemura
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