Resenha: Happy!

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Todo mundo tem que enfrentar a vida real uma hora ou outra. Certo?” – Mikey Fratelli

É noite de natal e Nick Sax, depois de cair em uma emboscada armada pelas próprias pessoas que contrataram seus serviços, está no hospital com uma bala alojada em seu corpo, semi-consciente e prestes a ser torturado e morto por membros da máfia. Ruim o bastante? Ainda não. Pois na vida de Nick Sax nada é tão ruim que não possa ficar pior. Ou pelo menos é nisso que ele acredita. E ele irá descobrir que sua crença pode ser decisiva para a vida de muitas pessoas.

Quem conhece as obras de Grant Morrison já sabe o que esperar. Ou o que não esperar. E sanidade é algo que nunca se espera das suas obras. Em Happy!, um dos seus primeiros trabalhos fora da DC (dessa vez para a Image Comics), Morrison destila não apenas todo o seu talento para o absurdo, como também para o cinismo e a crueldade nas histórias. Na obra, publicada recentemente pela Devir no Brasil, o autor nos apresenta ao já mencionado Nick Sax, um ex-policial exonerado que encontrou no assassinato de aluguel uma maneira de ganhar dinheiro. Suas motivações são o típico conto de Ícaro: um homem anteriormente forte e atraente, com uma carreira promissora e uma bela esposa, dedicado e íntegro, aos poucos é corrompido pela cruel realidade do mundo. A cada assassinato investigado, a cada morte presenciada, Nick se afasta mais e mais da felicidade, até o ponto em que é engolido pelo mundo. Torna-se alcoólatra, desenvolve um eczema, envolve-se pateticamente com uma colega de trabalho, sua mulher o deixa, a máfia o chantageia. Como dissemos no início, na vida de Sax, sempre pode piorar.

Mas o amigo leitor poderá dizer “ok, trágico, muito triste, mas o que tem de especial?”

Morrison. Morrison é o que tem de especial. Por que, quando se trata dele, é bom esperar o inesperado. E o inesperado em Happy! atende pelo nome de Happy! E quem ou o que é Happy!? Segurem firme. Morrison lembra? Happy é um unicórnio alado azul de desenho animado, amigo imaginário de uma menininha chamada Hayley. Ele é extremamente otimista e positivo, uma caricatura que remete imediatamente a qualquer personagem da Disney. Como fomos parar de um assassino de aluguel degenerado e quase morto para um unicórnio de desenho animado? Pois é quando Sax está as portas da morte que ele passa a ver Happy, e este lhe faz um apelo: sendo o único que consegue vê-lo, ele deve levantar seu traseiro esbagaçado da cama e salvar Hayley, que foi sequestrada por um maníaco psicótico, pedófilo, alcoólatra, fantasiado de Papai Noel e prestes a ser assassinada por ele. Um conto de natal, ao melhor estilo de Grant Morrison.

Esse sujeito é aclamado como um dos grandes gênios dos quadrinhos da atualidade e não é à toa. Poucos saber utilizar a linguagem das hq’s como ele, e esse é o seu grande trunfo aqui. Pois Happy! é uma história de conflitos e contradições, que são representadas visceralmente na relação do cínico e cruel Sax com o cavalinho colorido munido de esperança. A sinopse da trama poderia lembrar “Uma Cilada para Roger Rabbit”, no que toca a relação de um ser humano real com um desenho animado, mas me arrisco a dizer que Morrison criou uma obra muito mais corajosa. Basta perceber a quantidade de palavrões disparados por basicamente TODOS os personagens humanos da obra, enquanto Happy fala com expressões inocentes, simples e infantis. Trata-se de uma história de esperança e redenção, uma celebração da inocência infantil. Mas recheada de tripas, palavrões, sexo e tortura. É como assistir um desenho da Disney dirigido por Martin Scorcese.

Créditos precisam ser dados ao bom desenhista Darick Robertson, que cria uma cidade noir de um ambiente absolutamente opressor e angustiante, e que consegue concomitante e continuamente contrastar a figura flamboyant de Happy com toda essa opressão e angústia. Não é tarefa fácil acompanhar o pique das maluquices de Morrison, mas Robertson o faz com solidez e estilo. Com tanto estilo que é fácil nos comovermos com os esforços incessantes do unicórnio, com suas inúmeras expressões verbais e faciais, em fazer Sax se importar de qualquer forma que seja com a pequena Hayley, mas o niilismo brutal do assassino parece impermeável aos seus apelos. É preciso – vejam o brilhantismo do autor – um “milagre” de natal para isso.

Em termos gerais, se você estiver distraído, pode confundir Happy! com algo escrito por Garth Ennis, dada a escala da violência. Mas na primeira aparição do unicórnio, já fica fácil entender quem está escrevendo e também entender que não adianta imaginar para onde a trama vai; é melhor tentar relaxar e deixar a história fluir. Em termos de complexidade, é fácil. Morrison não escreve mais do que o necessário, tornando a mini-série, aqui publicada em volume único, atraente a todos os leitores. Em termos de tensão, é bom ir preparado, porque o autor vai forçar seus nervos e sua crença nas pessoas.

Happy! é uma ótima adição a qualquer coleção de quadrinhos. Um bom exemplo de como a linguagem dos quadrinhos pode produzir obras únicas. Não irei dizer inadaptáveis para outras mídias, pois anda nos corredores de Hollywood a intenção de adaptar a obra. Se perguntarem a opinião deste colunista, é melhor não. Cada um no seu quadrado, diria o outro.

Com o perdão do trocadilho, os riscos da adaptação ser infeliz (unhappy) são bem grandes…

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