Resenha: Kirby- Genesis

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“Minha versão teria revelado as supervisões exuberantes e autoconfiantes com que nos paramentamos desde tempos imemoriais. Os super-heróis e super-heroínas dos quadrinhos, no meu entender, personificam o idealismo e a motivação inata da humanidade. ” – Jack Kirby, sobre a placa que adornava a nave Pioneer 10, lançada pela NASA em 1972.

Capitão América, Sandman original, Legião Jovem, Arqueiro Verde, Desafiadores do Desconhecido, Quarteto Fantástico, os Vingadores originais, os X-Men originais, os Inumanos, os Novos Deuses, os Eternos, Senhor Milagre

É só uma parte. Só uma parte. Poderíamos passar o dia inteiro aqui listando as criações de um único gênio. Sim, todos esses aí em cima foram criados por um único cara, em associação com outros gênios das HQ’s. Jack Kirby é um colosso. Um gigante dos quadrinhos. Se em algum momento da sua vida você se identificou, se empolgou e vibrou, ou se emocionou com os super-heróis, você deve uma para esse gênio. Perdoem-nos se essa introdução parece um pouco passional demais, mas é impossível para um fã de quadrinhos e, mais ainda, de super-heróis, não se comover ao falar desse monstro sagrado, que com sua criatividade aparentemente infinita, basicamente ajudou a definir rumos para ficção científica e literatura pulp pós-segunda guerra, além de fundamentar no imaginário coletivo contemporâneo o próprio conceito de super-herói.

Durante toda a extensão de sua vida, que perdurou durante a maior parte do século XX (1917-1994) Jack Kirby pensou, criou e deu vida a centenas de heróis que deixaram uma legião de fãs de inúmeros lugares e inúmeras faixas etárias. Quando se fala sobre Jack Kirby, você pode ver um fenômeno raro, quase impossível, e interessante entre fãs de quadrinhos: unanimidade. As expressões de seus personagens, humanos e sensíveis, contrastavam com a magnitude dos seus cenários e eventos, fazendo com que, embora falasse sobre eventos cósmicos, batalhas épicas e deuses espaciais, nós pudéssemos nos identificar com seus protagonistas e imergir nos eventos de suas vidas.

Porque, para Kirby, super-heróis são mais do que homens e mulheres usando roupas de baixo por cima das calças, lutando sem motivo contra seus opositores. São um conceito. Uma ideia. E essa ideia representa aquilo que a humanidade possui de melhor: a esperança, a capacidade de superação, o poder de ir além da sua própria imaginação. E Kirby nos apresenta esses personagens, a sua arte e sua filosofia com graça e imponência. Os personagens citados no início são conhecidos por todos (principalmente suas criações para a Marvel, em parceria com outro colosso, Stan Lee) pois, em alguma medida, representam aquilo que nós acreditamos ou gostaríamos de poder fazer como espécie: explorar o desconhecido, realizar maravilhas, desafiar a própria natureza do universo e ir além.

Pois bem, para a imensa alegria dos fãs de Kirby no Brasil, a Mythos Editora lançou no ano passado (2014) o álbum Kirby: Genesis, que apresenta os oito primeiros números da série homônima. Mas, ao contrário do que o início dessa resenha possa sugerir, esse álbum, lançado em versão de luxo, estando à altura do que seu conteúdo oferece, não foi escrito ou desenhado por Jack Kirby. Estranho? Calma, nós explicamos.

Lembram-se da legião de fãs a qual nos referimos logo acima? Pois essa legião não é composta apenas de pobres e ignorantes fãs como esse resenhista. É composta também por outros gênios dos quadrinhos, que sucederam e vem sucedendo com dignidade o mestre, honrando seu legado. Entre esses gênios estão ninguém menos do que Kurt Busiek e Alex Ross. Junto com o bom desenhista Jack Herbert, eles resgatam personagens criados por Kirby, menos conhecidos do grande público, mas não menos empolgantes, como Capitão Vitória, Estrela Prateada, Tigre 21, Cavaleiros Gloriosos, entre outros, e forjaram uma história épica, a altura da estética e da grandiloquente narrativa do mestre.

A história do álbum é ao mesmo tempo uma grande homenagem e uma grande celebração dos super-heróis, da ficção científica e da literatura pulp. Nela, a sonda Pioneer 10, lançada décadas atrás pela NASA, encontra um misterioso artefato no espaço, que desperta a curiosidade de seres antigos e poderosos do universo profundo (se está tilintando na sua cabeça a trama do primeiro filme da série Jornada nas Estrelas (da série original, não o remake de Abrams), parabéns; você é um bom fã de SyFy). Esses seres, ao chegar à Terra, despertam forças antigas e ocultas do mundo, revelam heróis secretos e terras esquecidas, e transformam o planeta em um alvo para heróis, vilões e seres do espaço.

Quadrinhos no seu estado puro. A nona arte ganha vida através da alma de Jack Kirby.

Esses eventos são testemunhados in loco por um jovem (sutilmente) chamado… Kirby. Kirby Freeman, como todo bom protagonista de hq’s de super-heróis, acaba involuntariamente envolvido nesses eventos cósmicos que assolam a Terra quando seu amor platônico Bobbi é abduzida e transformada por uma entidade mítica chamada Cisne da Meia-Noite, que participa diretamente desses eventos. Para resgatar sua amada, Kirby acaba sendo um espectador de camarote dos acontecimentos inacreditáveis que, do dia para a noite, transformam o mundo real como o conhecemos em um lugar de seres impossíveis e poderes fenomenais.

A tarefa de honrar o legado do mestre sem transformá-lo em um caça-níquel barato ou uma HQ de pouca qualidade não é para qualquer um. Mas o bom fã de quadrinho conhece o time Busiek/Ross. Nos seus currículos, “apenas” uma das obras seminais das HQ’s e leitura obrigatória para qualquer um que queira conhecer a nona arte: a obra prima Marvels. Ninguém melhor para se colocar a altura do que representa Jack Kirby. O álbum tem alguns trunfos fantásticos: a arte, dos personagens e cenários em geral, é desenhada pelo bom Jack Herbert. Um desenho dinâmico e moderno, mas que usa como base os traços e a estética inconfundíveis, principalmente dos personagens cósmicos, criados por Kirby. Mas, nos momentos épicos, nas cenas de destaque, o desenho de Herbert é intercalado pelos quadros de Ross, dando a esses momentos um brilho inigualável. A arte hiper-realista, beirando a perfeição, de Ross, é conhecida dos fãs de quadrinhos e é vista aqui em toda sua glória. Não se repreenda se você passar minutos preso àquelas belíssimas imagens. É natural. Este resenhista mesmo transformou um quadro do Estrela Prateada no seu wallpaper do computador.

Complementando a estonteante arte de Ross e Herbert, nós temos a narrativa também dinâmica e envolvente de Kurt Busiek, a quem coube a tarefa mais difícil. Pois Kirby, embora um gênio inovador e criativo, era um produto de seu tempo. Para muitos leitores contemporâneos, sua narrativa e seus argumentos podem parecer datados ou verborrágicos. E é aí que todo o talento de Busiek se revela. Pois ele consegue encontrar o tênue equilíbrio entre uma narrativa contemporânea, mais séria e dinâmica, que usa a imagem para falar por si própria (valorizando aí também a arte magnífica de Ross), e as características épicas e imponentes das criações de Kirby. Nas mãos de escritores menos habilidosos, esses personagens poderiam parecer rasos e unidimensionais. Nas mãos de Busiek, eles ganham vida e personalidade e não é muito difícil de escolher entre eles o seu herói favorito e o seu vilão mais desprezível.

Kirby: Genesis não chega a ser uma leitura obrigatória. Mas é deliciosa. Se você gosta de super-heróis, encontrará aqui uma grande festa, uma celebração daquilo que nós amamos e crescemos lendo. Se você não gosta, talvez esse álbum seja a oportunidade perfeita para que você possa mudar de ideia. Se você não conhece super-heróis, seja bem-vindo a eles e a Jack Kirby. Seu universo acaba de se tornar mais épico, mais emocionante e maior. Muito maior.

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