quinta-feira, 6, agosto, 2020

Resumo

Apesar da falta de um mapa ou de ilustrações, a narrativa é convidativa, tensa e instigante e a curiosidade de saber o que vai acontecer é arrebatadora. Personagens bem construídos e um vilão de deixar qualquer outro no chinelo. Leitura digna de ser apreciada.

Resenha | O Silêncio da Cidade Branca

Parte de uma trilogia com mais de 1 milhão de livros vendidos, O Silêncio da Cidade Branca une mitologia, arqueologia, segredos de família e psicologia criminal em um thriller macabro e emocionante publicado pela Intrínseca. O livro já tem uma recém lançada adaptação disponível no catálogo da Netflix. O best seller escrito por Eva Garcia Sáenz de Urturi, uma autora espanhola de grande sucesso em seu país, se passa na região espanhola onde a autora nasceu e foi criada, o que traz grande veracidade a trama, pois ela conseguiu criar um romance de suspense macabro, misturado com mitos e com a cultura do local.

“Casal de jovens encontrados nus em monumentos históricos cercados por girassóis com idades sempre múltiplo de 5.”

O livro é narrado por Unaí, um investigador policial especialista na análise de perfis de criminosos que atua em parceria com Estíbaliz na delegacia da cidade. Tudo se iniciou a partir de assassinatos macabros na cidade de Vitória Gaenz, onde dois corpos nus posicionados de forma milimétricamente calculada, um com a mão sobre o rosto do outro como se estivessem dormindo. Nas pontas, como se formassem um triângulo e ao analisar os corpos, os legistas apontam que eles foram dopados, mas a verdadeira causa da morte foram as picadas de abelhas no pescoço. Ao iniciar as investigações, Unaí e Estibaliz descobrem que ambos não tinham nada em comum, a não ser a idade: 20 anos.

Inicialmente, poderia ser entendido como um crime ocasional, mas o curioso é que ele remetia exatamente aos crimes cometidos 20 anos antes por Tasio, irmão gêmeo do antigo investigador da cidade, Ignacio, que seria solto algumas semanas depois desse acontecimento. Não se sabia se era uma peça que alguém estava pregando, ou se era o próprio assassino atuando novamente ou alguém a mando de Tasio cometendo os crimes. Mas, se fosse a segunda opção, como o crime teria ocorrido se o assassino estava preso? A cidade estava em caos.

Veja também: Crítica | O Silêncio da Cidade Branca


No decorrer da trama tudo começa a piorar quando outros casais vão sendo encontrados em pontos muito marcantes e importantes para a história da cidade. Os crimes chocam pela perfeição e habilidade do assassino, que de modo surpreendente é revelado nos capítulos finais do livro. A cada novo capítulo, são traçadas novas semelhanças nos crimes, tanto entre si, quanto com os ocorridos anos antes na cidade. Os crimes são carregados de padrões e significados, desde a disposição dos corpos, até a idade das vítimas, a presença dos eguzkilore ao redor e o local. Outra coisa muito relevante é a fixação que o assassino tem pelo tempo, retratada de forma nítida e marcante, porque a idade das vítimas segue um padrão, o momento dos crimes é calculado e até mesmo a data de construção dos locais que serviam de palco para o seu “espetáculo” era analisada.

Outra história é contada pela autora em paralelo que com detalhes cronológicos ajudam a explicar pormenores, dos quais o investigador não poderia saber sozinho, e que trazem a sensação cíclica dos eventos na cidade. Nesse paralelo, ela se concentra em contar a história antes da chegada dos gêmeos Tásio e Ignácio, os primeiros suspeitos de Unai. Posteriormente, o investigador chega a saber desses eventos, mas a forma isolada que foram contadas, permite que a história siga um fluxo que não deixa a leitura cansativa ou confusa. Mesmo assim, a autora também investe em romance picante cheio de segredos e emoções a flor da pele, sendo um item secundário a investigação. A nova subdelegada da cidade, Alba Salvatierra (também conhecida como Blanca nas horas vagas) conhece Unai (ou melhor, Ismael) em uma corrida matinal antes de serem propriamente apresentados. Ali é o clássico momento em que ambos estão mais livres e abertos do que no ambiente de trabalho e se permitem perceber as cicatrizes um do outro de forma mais pura e essencial.

“Quando quem sai matando em série é um baita de um gênio, só o que resta é rezar para que não sorteiem seu número na loteria da morte.”

Ao longo da leitura, percebemos que o inspetor Unaí não está 100% bem em relação a perda da mulher e de seus filhos, e nos damos conta de que Alba o ajuda a se desprender aos poucos da dolorosa lembrança da morte da família e com isso uma mistura crescente de admiração, semelhanças e citações que ambos entendiam passa a alimentar o coração dos dois policiais, mas Alba era casada e o mais curioso é que ela nunca o menciona.

Um ponto muito positivo é que a autora teve a preocupação de fazer com que todos os acontecimentos fossem descobertos tanto pelos investigadores, Unaí, Estibaliz e companhia, e por nós leitores. O susto era igual, tanto para o personagem quanto para o leitor. E de forma fluida, a história se desenvolve sem perder o fôlego. Outro ponto muito bem executado é a construção dos personagens que tem uma história, que são complexos e muito interessantes. Estibaliz, representa uma mulher forte, inteligente e muito racional. O avô de Unaí, mostra uma sabedoria muito intrínseca ao seu tempo, os gêmeos, espantam por suas histórias de vida complicadas e cheias de acontecimentos inusitados e o melhor vilão já criado em todos os tempos. Esse vilão é inteligente, habilidoso, perspicaz, alguém que consegue ser vários num mesmo ser. É um personagem muito bem construído, que consegue chocar na revelação final.

Veja também: O Silêncio da Cidade Branca | 10 diferenças entre o filme e o livro


Por fim, alguns elementos da investigação poderiam ser deduzidos antes mesmo de serem contados. Apesar disso, todos os pontos foram muito coerentes e a sequência que eles foram colocados ficou harmônica no enredo. Cada mínimo detalhe foi bem trabalhado posteriormente, seguindo bastante aquele conceito de chaves que abrem outras portas que vão trazendo mais pistas essenciais no desenvolvimento da narrativa. Um ponto a ser pensado seria a inclusão de um mapa para que o leitor tenha uma visão de lugar quando os locais são mencionados, um glossário, pois algumas palavras são desconhecidas, notas de rodapé para explicar aspectos da cultura como as comemorações culturais que são citadas no decorrer da leitura e ilustrações, dos eguzkilores, por exemplo.

De qualquer maneira, com um mistério interessante e uma investigação fluida e cativante, O Silêncio da Cidade Branca é uma leitura que vale a pena.

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