Resenha: Quinze Dias-Vitor Martins

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Sabe aquele tipo de livro em que a gente pega, se apega e devora em algumas horas sem ver as horas passar? O tipo de livro que há a abordagem de temas muitíssimo relevantes para a sociedade, famílias, repleto de representatividade com um bom-humor incrível? Muitos livros são assim, mas o de hoje é o Quinze Dias, do autor iniciante Vitor Martins.

O livro é narrado em primeira pessoa e como narrador e protagonista, temos Felipe, um adolescente como qualquer outro, do tipo nerd e que ama seriados, leitura e piscina. Bem, ao menos amava piscina quando criança. Mora com sua mãe, Rita, uma professora de artes plásticas que todo aquele que ler o livro, vai desejar ter Rita como mãe ou, ter uma mãe como Rita. Tudo seria incrível se Felipe não sofresse bullying diariamente por seus colegas de escola. Para ele, as férias de julho seriam o ápice do descanso por não ter de aguentar seus colegas por um tempo e também, por faltar apenas seis meses para terminar o colegial e se livrar de todos eles de uma vez por todas.

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Arte e dedicatória do livro ‘Quinze Dias’, de Vitor Martins | Foto/Reprodução: Internet

Principalmente de Jorge e Bruno, os ofensores em primeiro grau do jovem. Tudo porque Felipe foge do padrão a qual a sociedade impõe: Felipe é gordo – sim, ele nos é apresentado dessa forma. Nada de gordinho, fofinho, cheinho. É gordo mesmo – e gay. Se assumiu para a mãe logo bem cedo e isso é o menor dos seus problemas. Desde criança, nutre uma paixão por Caio, o vizinho do apartamento 57, inclusive, eram amigos quando pequenos e chegaram a nadar várias vezes na piscina do condomínio brincando de sereias.

Mas o dia a dia os afastaram e no primeiro dia de férias de Felipe, ele é avisado por sua mãe que Caio ficará em sua casa por quinze dias, pois os pais do rapaz viajaram para o Chile em comemoração ao aniversário de casamento e não queriam deixá-lo sozinho em casa. Rita concorda em cuidar do menino durante o período da tal viajem e agora, Felipe terá de lidar com Caio, sua paixão pelo rapaz e também, com suas frustrações e percalços que aparecerão durante esses tais quinze dias.

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Vitor Martins, autor do livro ‘Quinze Dias’ | Foto/Reprodução: Internet

Vitor Martins, o autor do livro, é bem conhecido do público jovem por ser atuante em suas rede sociais e também, por ser dono de um canal no YouTube com quase 50 mil inscritos. Em seu canal, o jovem relata sobre ilustração (sua profissão), livros, seriados e também, assuntos do universo LGBT. Até que ponto Felipe tem de Vitor, não sabemos, mas há uma identificação de primeira com a história de Felipe logo de cara. A escrita que Vitor utiliza para narrar as cenas e também os diálogos, aproxima o leitor dos personagens e dos dias os quais eles vivem. Cada capítulo corresponde a um determinado dia – como se Felipe publicasse o seu diário e ficássemos íntimos do rapaz durante esses dias.

Embora a trama LGBT é bem recorrente no livro, ela torna-se o plot secundário da história – porque ser gay em Quinze Dias é o de menos. A homossexualidade de Felipe é retratada de forma tranquila e normal por Rita, sua mãe. Vitor faz questão de trazer à tona, questionamentos sobre o padrão a qual a sociedade impõe, se estabelecimentos comerciais estão preparados para receber quem é gordo, empoderamento feminino e também, os questionamentos e “achologias” que a sociedade tem sobre quem é gordo. O autor consegue exprimir com uma linguagem jovial, as delícias e as dificuldades de ser gordo onde magros predominam a sociedade.

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Arte e frase icônica do livro ‘Quinze Dias’, de Vitor Martins | Foto/Reprodução: Internet

De acordo com Bárbara Morais, autora da trilogia Anômalos, “é tão natural se identificar com os dilemas dos personagens e querer ser um dos amigos de Felipe“, e atesta que Quinze Dias é uma leitura indispensável. Acredito que Vitor não queira levantar bandeiras, mas fazer com que o tema “gay”, “homossexualidade”, seja tratado de maneiras mais normal e natural possíveis. Rita, a mãe de Felipe, representa zilhões de mães e pais que aceitam seus filhos gays independente do os outros vão pensar. Personagens como Rebeca e Melissa são extremamente cativantes e demonstram que o empoderamento feminino está bem longe de ser extinto (tanto a prática quanto o tema em rodas de debates). Mulheres, inspirem-se nelas!

Por fim, Quinze Dias é um refresco no meio de tantos outros livros que retratam temas relevantes para a sociedade. Toda pessoa que é aficionada por livros, não pode deixar de ler essa obra-prima. Vitor Martins é uma caixinha de conhecimento de cultura Pop (ou seria Felipe?) e aventura-se no universo literário e prepara-se para lançar seu segundo livro no próximo ano, até o momento, sem título definido. Fez sucesso na Bienal do Livro Rio 2017 e não tenho dúvidas que sua carreira literária está apenas começando. Eu mal posso esperar para ler outras coisas do rapaz, que é uma promessa das grandes dentro da literatura LGBT. E se eu fosse você, me deliciaria com Quinze Dias o quanto antes. O mundo inteiro é seu, Vitor Martins.

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