Resenha | Saga

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A onda de filmes da Marvel e as populares séries de heróis DC chamaram a atenção do mundo para as histórias em quadrinhos como nunca antes. Para muitas pessoas, isso pode significar uma porta de entrada no vasto e rico mundo da nona arte. Porque quadrinhos vão muito além dos heróis da Marvel e da DC.

Para quem quer se aventurar por esse universo, aproveite o lançamento no Brasil de Saga, o maravilhoso épico espacial do brilhante e polivalente roteirista Brian K. Vaughan e da talentosa Fiona Staples. A obra foi lançada originalmente em 2012 pela Image Comics, e chega a nós agora pela Editora Devir.

Ler Saga é permitir-se imergir, quase que automaticamente, em um universo rico em beleza e história, mas ao mesmo tempo chocante e aterrorizante. Sem meias medidas os autores arremessam o leitor em meio a uma trama que, de início, parece demasiadamente complicada para quem acabou de abrir o álbum. Mas não se engane. Vaughan não dá ponto sem nó.

Isso porque o autor é um especialista não na criação de universos, mas sim de personagens. Basta observar os trabalhos criados por Vaughan, ou aqueles nos quais ele está envolvido. Y: O Último Homem, Ex Machina, Fugitivos e Os Leões de Bagdá já são clássicos aclamados dos quadrinhos. E se você assistiu Lost ou, mais recentemente, Under the Dome, sabe como ele tem o dom para criar personagens profundos e complexos, mas com quem nós podemos nos identificar. O autor cria personagens vivos, e os universos em que eles estão, independente de quão bizarros eles possam ser, como o universo de Saga, tornam-se vivos junto com eles. Não é difícil se envolver com eles.

Saga conta a história do casal Alana, nativa do planeta Aterro, e Marko, nativo da lua de Aterro, Grinalda. Ela é contada do ponto de vista da filha deles, Hazel, uma criança que não poderia ter nascido. Porque seus mundos estão em guerra a muito tempo, tanto tempo que os motivos dessa guerra estão parcialmente perdidos no tempo. São diferentes raças com diferentes visões do universo. A raça de Marko se utiliza de magia. A de Alana, de tecnologia. Marko possui chifres. Alana, asas. Tudo pontualmente, mas precisamente estabelecido para nos fazer entender uma única coisa: eles não poderiam estar juntos. Muito menos poderiam ter tido uma filha. Mas eles estão juntos. E Hazel nasce. Quando se para pra observar as coisas com as quais eles estão envolvidos, entre elas, caçadores de recompensa na forma de aranhas-humanóides, governantes com televisões no lugar da cabeça, fantasmas perdidos em florestas antigas, árvores que na verdade são foguetes. Tudo parece demasiadamente surreal. Mas como eu disse, Vaughan não dá ponto sem nó. Tudo isso foi feito com um único propósito: tornar Saga uma obra feita apenas para a mídia dos quadrinhos. Inadaptável para o cinema ou para outras mídias. Claro, isso é questionável em uma época onde estamos sob a sombra de uma adaptação cinematográfica de Sandman, talvez a mais seminal e eminente obra que represente os quadrinhos na sua essência. Mas a intenção de Vaughan é latente durante a leitura de Saga.

Saga

Mas se a obra parece tão surreal assim, o que nos prende a ela? Voltemos ao começo do texto. Vaughan é um criador de personagens. Suas angústias, alegrias, tristezas, esperanças, sofrimentos. O que nos prende a este aparentemente inacreditável universo é um simples e compreensível, mas ao mesmo tempo poderoso e tangível, amor de duas pessoas pela sua filha. Alana e Marko a todo instante vacilam, perdem a esperança, se veem sem saída. O que os faz seguir em frente é a figura de Hazel, que narra a história enquanto adulta, nos fornecendo constantemente a ideia catártica de que, apesar de todo o sofrimento, o esforço e o amor de seus pais, em algum momento, prevaleceu. Não à toa, a obra foi comparada a algumas das mais conhecidas histórias já criadas, que vão de estilos e eras tão distintos como Star Wars e Romeu e Julieta.

Vaughan voltou à ativa nos quadrinhos depois de um longo hiato. Em sua opinião, as grandes editoras, principalmente Marvel e DC, estavam minando os quadrinhos com suas imensas, rocambolescas e insípidas mega-sagas. A pior parte disso é que estas monopolizam grandes autores, o que também prejudica bastante as publicações autorais. E mesmo estas estão ganhando um padrão nefasto: muitas são apenas grandes storyboards, prontos para se tornarem adaptações cinematográficas e render uns trocados para os autores. Ele não deixa de estar certo ao pensar assim. Pra quem pega qualquer saga (essas, com “s” minúsculo mesmo) dessas editoras no meio do caminho, fica justificadamente perdido. É difícil entender qualquer uma delas sem muita paciência, dinheiro e preferivelmente, um PHD em física.

Resenha | Saga 1

Felizmente pra nós, Vaughan não se importa com nada disso, a não ser contar uma boa história, e é isso que Saga é. Uma lenda, um épico, daqueles que fazem você querer voltar muitas vezes apenas para ter certeza de que os personagens prevaleceram sobre as mesmas dificuldades e chegaram ao mesmo final. Essa “simplicidade” conquistou leitores e críticos, dando a Saga inúmeros prêmios, totalmente merecidos, de 2012 pra cá. E até aqui, ainda é um dos melhores quadrinhos autorais em andamento no mundo hoje.

Vamos torcer para que autores como Vaughan e Staples nos ajudem a apreciar quadrinhos enquanto quadrinhos durante um longo tempo ainda.

Mas ninguém sabe onde essa Saga termina.

38 COMENTÁRIOS

  1. Olááá!
    Ain, não sou muito fã de quadrinhos, apesar de adorar o universo Marvel e DC, só não consigo gostar de quadrinhos, sei lá, o estranho é que eu gosto de Mangás… T_T Nunca vou me entender,
    Talvez por isso, Saga não tenha chamado a minha atenção, mas eu espero que os quadrinhos durem bastante, porque tem muita gente que gosta e seria muito triste eles sumirem!! Mesmo eu naõ gostando ahhaha

    Beijos

    LuMartinho |Face

  2. Caramba, fiquei morrendo de vontade. Eu ando achando que carecemos de personagens bem trabalhados, e se essa obra tem isso, eu com certeza vou atrás. Obrigada pela indicação.

  3. Que bacana não conhecia esses quadrinhos valeu pela dica, eu to aproveitando essa onda pra ler vários online, porque agr bomba sites bons pra ler e baixar hqs né então estou aproveitando demais.

  4. Eu adoro HQ, mas sagas me confundem um pouco, pois raramente consigo acompanhar. Mas você citar a construção dos personagens é algo elementar para mim, gosto de boas construções, vou anotar a dica.

  5. Olá!

    Eu parei um pouco de ler quadrinhos pela falta de tempo e porque tenho encontrado histórias repetitivas. Parei de comprar e de acompanhar, mas agora tem sites para ler online, mas acabo sempre deixando pra depois. Muito boa sua indicação, vou procurar para ler.

    Beijos
    http://www.breakingfree.blog.br/

  6. Oie! Tudo bem?

    Eu adoro ler quadrinhos. Eu não curtia muito, mas uma amiga minha me introduziu a esse universo e eu nunca mais larguei, rsrs. Ao contrário do pessoal aqui nos comentários, eu não curto ler online não rsrs

    Bjos

  7. Olá.. tudo bem??
    Bom eu não leio muito quadrinhos… aliás isso é algo bem raro de acontecer… porém eu gostei da premissa desse… é diferente e bem sureal… não sei se farei a leitura, mas quem sabe… xero!

  8. Oi oi!
    Eu nunca li nenhum quadrinho, mas esse eu com certeza leria. Fiquei encantada com esse universo que o autor criou, parece ser incrível e parece que nos transporta para ele, eu preciso ler.
    Anotei na wishlist e espero muito poder ler em breve!
    Beijão!

  9. Vou iniciar discordar de você em um ponto: para mim, os personagens de Under the Dome não são profundos nem complexos. Acho que os personagens mal trabalhos e junta com a péssima atuação a série fica tosca.

    Leio quadrinho menos do que gostaria. E ultimamente, quase não li nada, pois acabei desviando um pouco meu gosto literário para obras que nem tem tanto a ver comigo. Saga pare ser um ótima opção para que eu volte a curtir HQs. A premissa é muito interessante, e pelos os pontos levantados por você, Saga é mesmo uma bela história.

    Beijos!

    • Olá,

      Acho a construção dos personagens de Under The Dome, ao mesmo no início da série,boa. Os personagens, pois algumas atuações deixaram mesmo a desejar. Mas, vamos concordar em discordar, certo? :p

      Espero que volte aos Hqs e que Saga seja um ótimo recomeço!
      Obrigada pelo comentário.

  10. Oi, tudo bem?
    Não costumo ler HQ pelo preço e também porque nunca me interessei de verdade por esse tipo de livro, mas nosso, depois dessa resenha fica difícil não querer ler Saga, o livro parece ser EXCELENTE.

  11. Não costumo ler Hq´s por causa do preço, infelizmente as que me interessam tem Milhares de volumes com preços altíssimos, por isso acabo optando por alguns mangás que tem preço mais acessível, mas voltando ao post…
    Achei a proposta interessante, e me animei para ler, vou procurar mais informações (custo…)
    bjos

    • Olá,

      Esse é o grande problema das Hqs mesmo, o alto custo por volume, que não são poucos! Acho que Saga está num valor aceitável, espero que consiga ler e goste bastante!
      Obrigada pelo comentário.

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