Resenha: Shibumi – Trevanian

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Este não é um livro novo. Seu lançamento no Brasil foi em 1984 e depois uma nova edição em 2006 pela Landscape. Shibumi não é uma obra fácil de ser lida. Para muitos nascidos pós 1995, é necessária uma boa busca pelo Google ou com pessoas que são da época.

Trevanian consegue nos segurar do início ao fim de sua aventura com Hel. Em alguns momentos pode-se achar que o personagem é um James Bond. Mas em seguida isso já some da cabeça do leitor. Hel é único! É um personagem cheio de misticismo. Um homem crescido na Segunda Guerra Mundial.

Ele não tem pátria. Nasceu Russo, passou parte de sua infância na China e se tornou homem no Japão. E agora mora na Europa. Hel é uma mistura de culturas e simbolismos, que o torna único.

Shibumi é um livro com referências a espionagem. Possui as doses de aventura com lugares maravilhosos descritos pelo autor. É um livro ágil e cheio de reviravoltas.

Trevanian joga contra o estilo de vida americano e europeu. E mostra um lado do Japão que não existe mais e crítica a sua evolução. Mas também entende a necessidade das mudanças. E que aceitar, não é o mesmo de se entregar a essas mudanças.

Ele te faz refletir sobre a nossa existência. Quais realmente são os valores que desejamos para nós. Aqueles que acabamos esquecendo em algum ponto do tempo e que agora, por mais que queiramos trazer ele de volta, torna-se quase impossível.

Shibumi não é apenas uma aventura de espionagem e história. Ele é sobre filosofia. O livro é uma máquina do tempo que passeia entre o passado e o futuro mostrando o crescimento do personagem e evidenciando suas escolhas que o tornaram quem é. Durante esta jornada, ainda somos apresentados a Companhia. A grande antagonista do herói.

É interessante ler e perceber o quanto o autor nos joga na cara o que é o nosso mundo através da Companhia. Mesmo para um livro escrito na época da Guerra Fria, Shibumi ainda é atual. Tira-se os personagens do passado e coloca-se os de hoje. Muda o ano e tudo continua o mesmo. As guerras continuam as mesmas e a busca de poucos, ainda é pelo seu Shibumi.

“— Shibumi, senhor?

Nicholai conhecia a palavra, mas somente quando aplicada a jardins ou arquitetura, quando queria significar uma beleza atenuada.—Em que sentido usa a palavra, senhor?

—Ah, de maneira vaga. E acho que incorreta. Uma tentativa infeliz de descrever uma qualidade inefável. Como você sabe, Shibumi tenta definir um grande requinte oculto sob uma aparência corriqueira. É uma declaração tão correta que não precisa ser ousada, tão precisa que não precisa ser bela, tão verdadeira que não precisa ser real.

Shibumi tem mais a ver com entender do que com conhecer. Um silêncio eloqüente. Na conduta é modéstia sem humildade. Na arte, onde o espírito do shibumi assume a forma de sabi, significa simplicidade elegante, uma brevidade articulada. Na filosofia, onde shibumi emerge como wabi, é uma tranqüilidade espiritual não passiva; o ser sem a angustiado vir-a-ser. E, na personalidade de um homem, é… como dizer? Autoridade sem dominação? Alguma coisa assim.

A imaginação de Nicholai estava galvanizada pelo conceito de shibumi. Nenhum outro conceito ideal jamais o afetara tão profundamente.

—E como é que uma pessoa atinge este shibumi, senhor?

—Não se atinge o shibumi… descobre-se. E só uns poucos homens, extremamente refinados, conseguem esta proeza. Homens como o meu amigo Otake-san.

—O que quer dizer que a pessoa tem muito a aprender para chegar ao shibumi?

— Acho que não é bem assim. A pessoa tem de superar a sabedoria para chegar à simplicidade.

(…)

Embora tivessem conversado juntos até tarde, naquela última noite, sobre o que shibumi significava ou poderia significar, na essência mais profunda não estavam de acordo. Para o general, shibumi era uma espécie de submissão; para Nicholai uma espécie de poder.

Eram ambos prisioneiros de suas gerações.”

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