Resenha: Você- Caroline Kepnes

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Você. Aqui está um livro que possui um título um tanto chato de se procurar por informações na internet. Mas bem escolhido pela sua autora. O título é até uma brincadeira, já que durante suas várias linhas, perdeu-se a quantidade de vezes que essa simples palavra é escrita. E que em muitas vezes, parece ser o próprio leitor.

Inicialmente focado em um Stalker, Joe, que se apega à Beck, a obra acaba tomando rumos que vai muito além disso e analisa o psicológico de todos os personagens, desde o comportamento obsessivo de Joe- que se apaixona apenas por ter tido algum tipo de atenção de Beck e começa a procurar por ela em todas as redes socais usando apenas o nome apresentado no cartão de crédito durante uma compra-, até os jovens estudantes universitários que passam boa parte da vida na farra, correndo atrás de relacionamentos falidos e usando de argumentos falsos para chamar atenção.

Cada um desses personagens citados possuem um papel importante na trama, mostrando várias faces dos transtornos psicológicos, que atualmente já viraram comuns na sociedade. Caroline Kepnes não erra ao apresentar essas pessoas, trazendo personagens muito bem construídos. Suas personalidades ou falta delas, tem um “que” de problemas que vão do toque a obsessão.

Claro que foco ainda é a obsessão de Joe, que se mostra doentia em vários momentos e se torna rapidamente violenta. É nessas horas que a narrativa da autora comete alguns deslizes. Em várias situações percebemos que Joe é obsessivo, apenas isso, e não um sociopata. Entretanto, Kepnes, que até então estava mostrando um quadro muito bem explicado desse transtorno, se contradiz e coloca comportamentos típicos de serial killers nele, como pensar constantemente em sexo, sendo que nesses casos geralmente é necessário um trauma para manifestar esse tipo de comportamento, coisa que Joe não tem.

Em algumas vezes a leitura acaba ficando um pouco confusa, pois do nada a profunda analise comportamental acaba e Joe narra os acontecimentos rapidamente e por alto, como são em algumas mortes. Não chega a ficar incompreensível, porém contrasta com as longas cenas onde ele está preparando impecavelmente suas ações, apenas para citar rapidamente e quase impensadamente o desfecho.

Porém, esses são os únicos problemas da obra. Você mergulha no íntimo de pessoas que possuem transtornos de obsessão, que vivem apenas em função dos outros e que com isso acabam mais se prejudicando do que a eles. Lógico que existe o prejudicial nesta história para aquelas que estão ao lado da personagem que ele tanto é obcecado – e não deseja. Desejo e obsessão são tratados como formas distintas, onde desejar acabaria rapidamente na primeira transa, mas a obsessão não. A obsessão mantém a pessoa presa dentro de si, fazendo com que ela viva dentro de um cubículo onde só cabem ela e a pessoa que quer. Não cabem mais nada ali. Nem outras pessoas e muito menos sonhos.

O transtorno é tão forte que leva o indivíduo a duvidar de si mesmo, chegando ao ponto de se mutilar quando seus planos não dão certo, pois se sente indigna quando acha que falhou com a outra. Ou a persegue não apenas pelas ruas, mas pelas redes sociais, pegando o celular e de outras maneiras. Não querendo saber o que ela faz, mas com quem irá se encontrar, falar ou tantas outras coisas que passam pela imaginação tão fértil do perseguidor. Isso tudo de uma maneira tão justificada na cabeça da pessoa, que se convence de que está ajudando, que chega a assustar por apontar que quase todos nós temos esse comportamento, mesmo que seja em uma escala menor.

Em sua mente, aquela pessoa sempre o está traindo, mesmo que não tenham nada.
E a autora mostra isso não apenas através da obsessão de um homem por uma mulher. Mas em todas as relações, até mesmo da melhor amiga. E também da personagem perseguida, que possui seus próprios transtornos.

Você é um livro que pode falar sobre “você leitor”, sobre problemas que “você” já passou ou apenas uma ficção. Fica por sua maneira de interpretar. Isso tudo sem tirar o aviso dos perigos das redes sociais e levar ao extremo as atitudes que um stalker pode tomar para chegar em quem ele precisa.

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