sábado, 23, janeiro, 2021
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Crítica | The Old Guard é mais que porradaria e bomba!

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Parece fácil manter o equilíbrio entre papéis que exigem grande profundidade dramática e personagens em longas de muita ação. A atriz  sul-africana Charlize Theron é uma das atrizes hollywoodianas que tem conseguido esse feito. Já tendo sido premiada com o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz por sua arrebatadora performance em Monster: Desejo Assassino e concorrido a esses e outros prêmios diversas outras vezes, ela sempre aceita o desafio de construir personagens icônicos como em PrometheusMad Max: Estrada da Fúria e até mesmo em longas não tão interessantes assim como  Branca de Neve e o Caçador e Velozes e FuriososThe Old Guard é o palco para mais uma vez Charlize Theron mostrar o seu brilhantismo e dessa vez… bem acompanhada.

Baseado na HQ de mesmo nome da Image Comics escrita por Greg Rucka (que já trabalhou nos quadrinhos da Mulher-Maravilha), o mais recente longa lançado pela Netflix gira em torno de um grupo de pessoas que possuem o dom da imortalidade. Eles se juntaram, como um esquadrão de operações especiais, para proteger pessoas que precisam de ajuda. Liderados por Andy (Theron), Booker (Matthias Schoenaerts), Joe (Marwan Kenzari) e Nicky (Luca Marinelli), eles sobrevivem se ocupando com estes resgates e missões. A calmaria se vai quando o time passa a ser perseguido por uma grande empresa farmacêutica em busca dos seus corpos para pesquisas científicas. Além disso, surge uma nova imortal, a fuzileira Nile (KiKi Layne).

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Capa do quadrinho The Old Guard / Reprodução

Logo de início, vemos os corpos dos quatro integrantes mortos após um frenético tiroteio e como num passo de mágica, os quatro se levantam como se nada tivesse acontecido e partem para o contra-ataque. A violência é escancarada aos quatro canto da tela . E o sangue? O tiroteio? Lembra de Bastardos Inglórios? O sangue jorra no melhor estilo Tarantino e as cenas de tiro também. Os efeitos especiais são bem feitos na recuperação dos ferimentos. As cenas de luta são bem coreografadas e o trabalho dos dublês é maravilhoso. Por outro lado, Merrick (Harry Melling, franquia Harry Potter) é um vilão bem idiota e sem graça que não se importa com quantas pessoas precisam morrer para que ele e sua empresa – ele é a mente “precoce” que representa as indústrias farmacêuticas Merrick – alcance o objetivo do lucro. Não muito diferente da nossa realidade, não é?

Decisão perigosa, porém, mais certa do que notas de 100 reais. É o próprio Rucka quem escreve o roteiro em seu primeiro trabalho nessa cadeira. Além disso, o escritor de quadrinhos americano mostra talento também no lado cinematográfico, construindo uma história emocionante acrescentando elementos que tornam a história ainda mais redonda, emprestando função – mas não explicação – aos “poderes” dos cinco imortais e um episódio no passado de Andy que revela, graficamente, o quanto esse dom pode ser uma terrível maldição e que  também serve para criar um cliffhanger (é um recurso de roteiro utilizado em ficção, que se caracteriza pela exposição do personagem a uma situação limite, precária, tal como um dilema ou o confronto com uma revelação surpreendente) que torna este potencialmente o começo de uma franquia.

Assim como a novata do grupo que está desesperada por respostas, nós também estamos. Mas mais importante que isso, é a condução que a produção tem. Temos personagens principais muito bons e com histórias próprias e mais interessante ainda é a forma como cada um é tratado e construído. Se por um lado temos mulheres que vão para a luta, são determinadas e corajosas, temos um casal gay nada estereotipado e caricato e sim dois personagens que demonstram o seu afeto seja por frases ou gestos e ainda assim são representados com muita naturalidade.  No entanto, a trilha sonora eletro pop é fraca para o tom da trama e alguns personagens sub ou mal desenvolvidos tiram um pouco a atenção do telespectador.

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O time de protagonistas são muito bons. Já o vilão… O industrial bilionário Merrick (Harry Melling) não é mais do que uma caricatura sem sal ambulante que só faltava se vestir de preto e esfregar as mãos, ocasionalmente soltando risadas histéricas ou com ares de louco. O personagem Chiwetel Ejiofor  é mediano e sem vida. Merecia mais. Porém, ainda assim desse jeito “gelatinoso”, seu personagem Copley se sai melhor do que a turma do vilão. Tudo o que Rucka inseriu de variação em Copley ele tirou de Merrick e de seus capangas, fazendo com que o telespectador queira o fim trágico, cruel e trucidante de cada um que pertence a equipe do vilão que tem um fim de tirar o fôlego. E o que é aquela cena pós-crédito? Tem cheiro de sequência, né dona @Netflix?

Mas por que devo assistir?

É uma trama interessante e a história é diferente do que estamos acostumados. Se por um lado, Andy (Theron) ficou com medo de ser deixada para trás e esquecida pela entrada da novata Nile e vemos que isso não acontece. Vemos que a traição é por algo inimaginável e vem de onde não se espera. O mais surpreendente é que temos um filme em que a mulher não é a escada para o homem brilhar e vai além disso… temos representatividade LGBTQ que é muito raro ver em longas de ação. O longa é bem construído, tem boas passagens de cena e um elenco maravilhoso.

Aposta em duas mulheres como destaque de força e coragem. A ação é muito bem conduzida por Gina Prince-Bythewood ( A Vida Secreta das Abelhas), que sabe trabalhar com explosões e pancadaria sem exagerar demais e sem desnortear o espectador. E mais um ponto bem observado é o tom dramático empregado por Theron que nos entrega uma Andy melancólica que permanece até mesmo nos momentos alegres que são poucos e em meio a porradaria desenfreada.

Desse modo, a atriz consegue dar a personagem uma bagagem extensa e pesada de sua imortalidade que aos poucos se esvai. Embora, tenham pouco tempo de tela, os demais companheiros imortais são tão bons quanto Andy e Nile que funciona como a nossa “entrada” nesse mundo aterrorizante e diferente, triste e inquietante. É um bom longa e merece uma sequência.

Nota do Thunder Wave

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