Vivemos, sem sombra de dúvidas, em uma era de jogos eletrônicos. Sejam as rápidas partidas nos jogos de celular nos ônibus ou no trajeto para o trabalho, as partidas com amigos online em jogos estilo League of Legends, ou aquela campanha de um jogo para um console que você senta e joga por horas, estamos sempre com algum tipo de controle nas mãos.

E é justamente por estarmos tão acostumados a lidar com jogos como uma plataforma eletrônica, a coluna de hoje puxa para outra direção: estamos também presenciando uma era de ouro nos jogos de tabuleiro. Para muitos, board games, como os entusiastas denominam seu hobby, são os antigos War e Banco Imobiliário e os tradicionais xadrez, gamão e damas. São tão populares e tradicionais que eles mesmos entraram na roda dos jogos digitais – você pode baixar aplicativos para desenvolver o lado mental dos jogos com o xadrez ou poker em qualquer aparelho e jogar sem precisar de um adversário na sua frente; há vários aplicativos para você encarnar o Kasparov no caso do primeiro e um smartphone com Android/IOS como no caso do segundo.

Embora os acima citados sejam, sem qualquer sombra de dúvidas, jogos com um caráter mental bem denso, há um universo gigantesco a ser desbravado. Tão gigantesco que um dos sites referência no mundo para jogos de tabuleiro, o Board Game Geek, conta com mais de 13.000 títulos em seu ranking. Entre temas, mecânicas e ideias, você consegue se perder facilmente se não tiver alguém para ajudar. Não se preocupe; aqui você encontrará o básico para começar a pesquisar sobre o assunto.

Antes de mais nada, deixo uma pergunta a ser respondida: o que faz a experiência dos board games serem tão ricas? Bom, essa é um questionamento que dá ensejo às mais diversas respostas. Há quem diga que gosta de enganar e mentir para as pessoas para vencer – os jogos de blefe e sociais; há quem responda que criar o caminho ótimo para a vitória sem depender da sorte é o que mais os atrais – jogos mais secos, denominados euros; ou quem responda que jogos com a galera são o caminho – os party games. Na verdade, tudo o que foi dito pode ser resumido na frase de um querido crítico de board games, Quintin Smith: jogos de tabuleiros são interessantes porque as pessoas são interessantes.

É exatamente isso. Independentemente do estilo de jogo, jogos de tabuleiros funcionam porque as pessoas são fascinantes dentro de um rol de regras específicas com objetivos para realizar. Aquele seu amigo que você jurava que era um cara apaixonado por coisas organizadas faz jogadas apenas para deixar o tabuleiro caótico; ou você descobre em um jogo social que um amigo seu é mais eficiente do que você gostaria em mentir. É uma experiência positiva não só pelo jogo em si, mas também pelo ambiente que a cerca. As pessoas fazem parte de cada partida, e cada partida de um mesmo jogo é diferente por causa disso.

Mais uma vez vou me utilizar de Quintin Smith para explicar o porquê dos jogos de tabuleiro serem tão fascinantes: os jogos não ricos ou interessantes são pela capacidade dos jogadores em se planejar para turnos futuros; eles são ricos pela incapacidade de alguém conseguir vislumbrar três, quatro turnos na frente. Essa imprevisibilidade por si só coloca os jogadores sob pressão. Entre tomar uma decisão A ou B, as duas com vantagens e desvantagens, a narrativa de uma partida se desenrola. Às vezes, depois de uma partida, você fica dez minutos conversando sobre momentos cruciais no desenrolar do jogo, ou um movimento brilhante, ou apenas a carta que saiu que acabou com os planos de longo prazo de metade da mesa.

Jogos de tabuleiro

Sob o aspecto de design de jogos, muitos experientes desenvolvedores de jogos eletrônicos recomendam aos aspirantes que comecem criando jogos de tabuleiro. O motivo é bastante simples: os sistemas do jogo estão todos ali e são confeccionados na maioria das vezes por uma única pessoa. Saber se seus conceitos de jogo funcionam, e, mais importante ainda, se divertem os jogadores é mais fácil criando experiências no modo analógico. Nesse sentido, quando abrimos uma caixa de um jogo, vemos com muita clareza as visões de sistemas de um determinado autor muito mais do que veríamos em um videogame. É elegante, instiga a curiosidade e, ao pegar um manual, te faz questionar – em termos de balanceamento do jogo – o que causou a entrada de determinada regra.

No final das contas, tem aquele elemento estético, claro. Particularmente, é uma delícia mexer com peças de madeira, resina ou plástico na mão, movê-las de um lado para o outro; rolar um dado é bom, colocá-lo de lá para cá. Um dos pequenos prazeres, mas tem seu valor.

Agora que já discutimos alguns dos motivos que fazem da experiência dos jogos de tabuleiro algo divertido, podemos ir às vias de fato: por onde começar? É uma pergunta para lá de pertinente, até porque se você começar por uma via errada, capaz de se indispor com novas experiências.

Há uma expressão para os jogos próprios para os que estão se familiarizando com o hobby: os gateway games são aqueles cuja transição dos conceitos mais antigos de board games para os modernos seria mais fácil. É fácil de encontrar listas e listas para esta categoria, mas eu não estaria sendo diligente se não mencionasse alguns aqui.

Um dos mais populares é Colonizadores de Catan, lançado pela primeira vez em 1995. A criação de Klaus Teber traz uma disputa por espaço, geração de recursos e troca entre jogadores. O jogo é simples, bonito e tem cartas, dados e peças – agrada quase todo mundo. Outro título popular é Ticket to Ride, que já conta com diversas versões, entre elas Europa e Países Nórdicos; nele você tem como objetivo construir linhas de trem de uma cidade a outra, dependendo do objetivo. Simples, facílimo de entender e sempre recepcionado com honras nas mesas.

Ticket to Ride

Carcassone, jogo homônimo da cidade francesa no sul do país, é outro gateway. Você não começa com um tabuleiro; você vai, de turno em turno, colocando pequenos tiles – pedaços de mapa – que compõem, aos poucos, o panorama da cidade, e faz pontos de acordo com a forma que coloca os trabalhadores nos castelos, estradas, campos e monastérios. Outro jogo simples, com profundidade estratégica e que faz um sucesso avassalador.

Claro que estes títulos podem não agradar a todos. O segredo é encontrar um jogo que seja essencialmente simples e que ensine alguma mecânica consagrada dos jogos de tabuleiro. Introduzir conceitos como leilão, worker placement (alocação de trabalhadores), tile placement (colocação de pedaços de tabuleiro) ou controle de área ajudam a construir o conhecimento dos iniciantes para experiências futuras – além de já ser extremamente divertido na hora que o jogo está na mesa.

A era de ouro dos jogos de tabuleiro está aqui. Se não quiser investir de cara em um jogo que não conhece, não tema: sempre há eventos regulares nas cidades brasileiras. Basta procurar em fóruns sobre o assunto onde e como participar. É uma comunidade aberta aos iniciantes, pois não há nada melhor que trazer gente nova para esse universo. Em uma época nas qual as conexões de internet ditam as relações sociais e as experiências de jogos, sentar ao redor de uma mesa com quatro pessoas e esquecer do celular por algumas horas é uma experiência para lá de bem-vinda.

 

Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Please enter your name here