quarta-feira, 8, dezembro, 2021

Crítica | The Killing – 1ª temporada

Entre assassinatos cruéis, a trama supera pelo seu apelo humano

A série The Killing é baseada na trama dinamarquesa de sucesso Forbrydelsen, que nos apresenta bons episódios em sua primeira temporada. Ambientada numa Seattle chuvosa, fria e cinzenta, a obra carrega um tom mais “dark”, fúnebre e um tanto depressivo que são necessários para uma série que envolve homicídios a serem desvendados. O mais interessante é que mesmo lidando com assassinatos, a obra foca no ser humano.

Logo de início a produção fisga o telespectador em que somos apresentados os personagens principais e secundários e o crime que precisa ser solucionado. A trama começa com a partida da detetive Sarah Linden, interpretada por Mireille Enos, da policia de Seattle, e consequentemente é o seu último dia de expediente. Linden vai sair não só da policia, mas da cidade e da vida que ela tem para se casar novamente. Aparentemente, ela parecia motivada a se mudar. Porém, Sarah Linden precisa treinar seu substituto, um novato chamado Stephen Holder, personagem de Joel Kinnaman, que saiu da narcóticos de uma pequena cidade do interior que é próxima a Seattle e agora entrou para o departamento de homicídios.

Crítica | The Killing - 1ª temporada 1
Joel Kinnaman e Mireille Enos são os detetives Holder e Linden/ Reprodução

A trama tem um bom roteiro e bons personagens principais e secundários. Algo muito positivo é o fato de que a trama não se deixa ficar “presa” no assassinato que por si só já é algo trágico. É uma espécie de “CSI”, mas com o ego menos inflado, é mais real. Ao redor do crime a ser desvendado, circulam as tramas secundárias e são elas que fazem com que a obra não deixe a peteca cair. O fato de debater a maternidade, o senso de justiça, corrupção politica e policial, dependência química, os segredos que possuímos, a verdade e a mentira, a valorização das relações interpessoais e a dadiva e a merda de ser “ser humano”.

Desenvolvida por Veena Sud, a série traz como protagonista a detetive Sarah Linden que estava de mudança para uma vida nova como mencionado anteriormente. Contudo, ela se envolve na investigação do assassinato da adolescente Rosie Larsen (Katie Findlay), encontrada morta em um carro registrado pela campanha de um candidato à prefeitura da cidade e esse fato é o foco das duas primeiras temporadas e nisso a trama se divide em três conjuntos, o da policia que trabalha incansavelmente para solucionar o assassinato, o da família que precisa superar o luto e o da campanha que busca se desvencilhar dos obstáculos de se ver envolvida em um caso de homicídio a menos de um mês das eleições.

A forma como a personagem de Mireille Enos é retratada torna-se esplêndida. Antes de qualquer coisa, vemos uma personagem forte, sisuda, roupas não coladas ou “femininas”, cabelos presos e mãe em construção. O fato é que Linden é uma mulher DIFÍCIL e desafia o universo em que está inserida desconstruindo assim a imagem estereotipada de que as mulheres são frágeis, meigas e dosséis, se é assim que podemos dizer.

Num ambiente predominantemente ocupado por homens, Linden é a pessoa que se destaca. Quem assiste a série, se apega a personagem que não se esforça para ser simpática ou gostável. Ela não é falsa, não finge ser o que não é. Ela simplesmente mantém uma casca e não deixa que ninguém a machuque. Mas vemos que é difícil. Ela tem problemas com confiança devido a sua infância difícil. Embora, ela tivesse que se mudar, percebemos uma relutância. Ela se envolve de uma forma tão profunda no caso de Rosie Larsen que ela acaba negligenciando as necessidades do próprio filho menor de idade e se torna cada vez mais passional no modo de conduzir seu trabalho – tornando-se, nesse período a “pior policial do planeta”, como foi acusada. E o julgamento que é feito a todo momento sobre Sarah Linden é que ela se importa mais com os mortos do que com os vivos. Mas não é bem assim.

Crítica | The Killing - 1ª temporada 2
Mireille Enos e Liam James vivem mãe e filho numa relação desgastada e descontrolada / Reprodução

A dedicação e priorização ao trabalho em detrimento de sua própria vida, faz com que Sarah perca seu relacionamento e tenha um relacionamento conturbado com seu filho Jack (Liam James) e isso vai na contramão de muitas personagens femininas da ficção que têm na vida privada o seu eixo central, se não for o principal, e em The Killing vemos a priorização da carreira em detrimento da vida pessoal e isso faz dela uma profissional exemplar e nada convencional. O fato é que a série desconstrói o mito de que toda mulher nasceu para ser feminina, mãe, esposa ou qualquer outra coisa que se encaixe nessa linha. Ponto positivo!!!

O alivio cômico fica por conta do garotão Stephen Holder que era para ser o substituto de Linden, mas acaba precisando ser treinado por ela. Logo de cara, vemos que ambos detestaram a ideia, Linden porque tem problemas em confiar nas pessoas em geral e Holder porque não esperava seguir ordens, e sim ser o comandante da po*ra toda, porém, é mandado para lá e cá, tratado como se fosse um “cachorrinho de colo” como é mencionado na série. Holder parece têm um passado complicado também, se mostra inseguro e inexperiente, mas vemos que no fundo ele tem um bom coração.

Inicialmente, Holder começa como investigador da Divisão de Narcóticos após ter sido preso diversas vezes por posse e tráfico de drogas, virando então informante. Apesar de estar limpo há algum tempo, sua dependência química destruiu sua relação com sua irmã e o sobrinho. Ainda absorvido pelo visual, trejeitos e gírias das ruas, Holder tenta transparecer alguém forte, equilibrado, seguro, capaz, mas a máscara que ele constrói não é suficiente para esconder o homem fragilizado que a todo momento tenta se apegar no pouco que têm ao redor para se sentir humano.

A família Larsen, tem sua importância. Temos Stan (Brent Sexton) e Mitch (Michelle Forbes), com seus dois filhos, além de Terry Marek (Jamie Anne Allman), irmã de Mitch. Vemos uma família destruída pela morte de Rosie e podemos sentir esse sofrimento que é detalhado pelos roteiristas e na série vemos como cada personagem. E é nesse campo familiar que vemos as camadas profundas e complexas que são desenterradas capitulo por capitulo, sem pressa e com total exploração de todos os arcos que fazem a história ganhar força e veracidade.

O terceiro núcleo é composto pelos personagens envolvidos na campanha para prefeito do vereador Darren Richmond (Billy Campbell) e seus assessores imediatos Gwen (Kristin Lehman) e Eric (Eric Ladin). Coincidência ou não, o carro onde Rosie é encontrada está registrado em nome da campanha e isso é a porta de entrada para o universo politico que se mostra podre por tradição com Darren sendo representado como uma exceção a regra. De certo modo, a trama nos apresenta uma obra variada, saindo um pouco do clima pesado de um assassinato brutal e nisso, podemos nos envolver com a luta de Darren, um homem fragilizado com um desejo imenso de superar, mas que às vezes fraqueja como qualquer outro ser humano. Seus dilemas éticos e morais são atributos que enriquecem a narrativa central.

Crítica | The Killing - 1ª temporada 3
Elenco encabeçado por Mireille Enos e Joel Kinnaman da série produzida pela AMC / Reprodução

Vemos que nenhum personagem tem a sua jornada desmerecida ou rasa. São personagens bem desenvolvidos e cada um tem a sua importância para a série e nada é entregue ao público de forma fácil, acontece de forma orgânica e dentro do necessário, é tudo entregue de forma “suficiente”. Um exemplo disso é a personagem Regi Darnell (Annie Corley) e sua relação com Sarah. Nós não sabemos o que ela é exatamente, ela poderia ser uma irmã, mãe, tia, ex-amante ou amiga de Sarah? Nunca há um diálogo do tipo, “essa é Regie, ela gosta muito de nós e é minha…”, pelo menos num primeiro momento, não sabemos o que ela configura na vida de Sarah.

Por fim, temos Seattle. A produção não se preocupa em mostrar a cidade como se fosse um show de pontos turísticos e sim como ela realmente é: fria, chuvosa e cinza, quase que triste. A chuva é um aspecto constante e percebemos que a fotografia brinca muito com tomadas noturnas, escurecidas, sem iluminação artificial aparente, exercendo uma opressão nos personagens que têm que andar de cabeça baixa e com passos apressados para não ficarem molhados. É bizarro, mas Seattle parece ser um personagem contemplado na série e esse visual fúnebre e depressivo passado pela cidade, infesta o figurino também, deixando tudo na mesma paleta de cor, sem brilho, leveza, alegria… nem nos momentos felizes – acontecem pouco-, é como se fosse o fundo do poço, afinal a atmosfera remete a isso, não é? A destruição por meio de assassinatos e os seres orbitantes desse universo frio e cruel.

Por mais que pareça uma série depressiva, The Killing não é isso. É uma série que por meio de um assassinato com final inconclusivo – ainda-, aborda questões muito importantes como o mito da maternidade, a importância da família, como a dependência química destrói relacionamentos, como a dedicação extrema à algo pode ser prejudicial, a força da amizade, o poder das segundas intenções e muitos outros assuntos que circundam o assassinato de Rosie Larsen. Afinal, quem matou Rosie? Essa pergunta se torna o fio condutor da segunda temporada que se desdobra em mais vidas destruídas, da busca incansável pela justiça e pela vontade exorbitante de viver.

Nota do Thunder Wave
É uma série com uma atmosfera intimista, profunda, com carga emocional muito intensa. The Killing conquista por seus protagonistas e secundários bem desenvolvidos e atuações impecáveis. A série cumpre o que promete e vale o entretenimento.

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